Tudo que Capoeira Toca

Tudo que Capoeira Toca | Everything That Capoeira Plays
Pedro Aspahan | César Guimarães | 80’ | 2026

SINOPSE

Tudo que Capoeira Toca: um filme guiado pela música e pelo canto.
A partir dos cantos de importantes mestres de capoeira do país — ladainhas, corridos e chamadas que atravessam gerações — o filme constrói uma escuta profunda da diáspora africana no Brasil. São músicas nascidas do deslocamento forçado, do cativeiro e da violência colonial, mas também da invenção contínua de mundos possíveis através do ritmo, da voz e do corpo.

Sem entrevistas explicativas ou narração externa, o filme se organiza como uma partitura viva. Cada canto carrega histórias de travessia, perda e resistência: vozes que cruzaram o Atlântico, encontraram a repressão nas ruas e nas senzalas, e permaneceram ativas na memória coletiva por meio do som. Na capoeira, cantar é lembrar — e lembrar é um gesto político de resistência.

O berimbau conduz a narrativa como instrumento ancestral e arquivo histórico. A roda se afirma como território sonoro de pertencimento, onde corpo, música e palavra se fundem em uma forma de conhecimento que escapa à escrita colonial. O capoeirista canta com o corpo, joga com a memória e transforma dor em movimento.

Entre Angola e Bahia, entre o mar, a mata e a cidade, os cantos revelam uma ancestralidade que não é fixa, mas vibrante. Uma herança africana que se reinventa a cada toque, a cada resposta coral, afirmando a vida diante do apagamento.

Mais do que um documentário sobre capoeira, Tudo que Capoeira Toca é um filme sobre música como resistência. Um cinema da escuta, onde a voz ancestral não ilustra a imagem — ela a conduz, a atravessa e a transforma.

Tudo o que a capoeira toca passa a soar como história.

Sinopse curta

A partir dos cantos de importantes mestres de capoeira do país, o filme expressa musicalmente a história da diáspora africana no Brasil. As vozes e os gestos revelam a capoeira como uma prática política da memória, onde o canto e o toque do berimbau se tornam resistência e o corpo se torna história.

NOTA SOBRE O SOM 

O som não é um elemento de Tudo que Capoeira Toca — ele é sua estrutura.

O filme é inteiramente construído a partir das formas musicais da capoeira: cantos, respostas, toques, silêncios e respirações. Esses sons não funcionam como acompanhamento, mas como portadores de conhecimento histórico. Cada canto atua como um arquivo da diáspora africana, preservando experiências de deslocamento, cativeiro, fé, luta e sobrevivência que foram apagadas das narrativas oficiais.

O berimbau opera como eixo narrativo e instrumento político. Suas variações de timbre, ritmo e chamada organizam tanto o movimento do canto quanto o tempo do próprio filme. Os corpos se deslocam do fundo da mata, como se emergissem de um passado histórico, de onde nasce a própria capoeira, e pra lá retornam, num movimento cíclico de partida e retorno à uma África ancestral. 

Não há música externa adicionada. Nenhuma voz explica o que se escuta. O filme confia na estrutura musical dos próprios cantos, permitindo que ritmo e repetição conduzam a experiência do espectador. Nesse sentido, o som atua como estratégia decolonial: o conhecimento é transmitido pela escuta.

Tudo que Capoeira Toca entende o som como território. Um espaço onde a memória vibra, a ancestralidade se atualiza e a resistência política continua a ressoar — não como nostalgia, mas como presença.

Com as Mestras e os Mestres de Capoeira:

  1. Mestre Batata | Ouro Preto
  2. Mestre Careca | Pirapora
  3. Mestra Chaverinho | Muriaé
  4. Mestre Chicão | Formiga
  5. Mestra Codorna | São José da Lapa
  6. Mestre Donizete | Governardor Valadares
  7. Grão Mestre Dunga | Belo Horizonte
  8. Mestre Macaco | Governador Valadares
  9. Mestre Magela | Ibiá
  10. Mestre Mendonça | Jequitinhonha
  11. Mestra Miúda | Uberlândia
  12. Mestre Paulo Brasa | Ouro Preto
  13. Mestre Pelota | Belo Horizonte
  14. Mestre Raposa | São João Del Rei
  15. Mestre Reginaldo | Passos
  16. Mestre Sena | Poços de Caldas
  17. Mestre Tida | Ubá
  18. Mestre Zé Maria | Montes Claros

English Synopsis

Everything That Capoeira Plays is a film guided by music and song.

Through the chants of important capoeira masters — ladainhas, corridos and calls passed down through generations — the film creates a deep listening to the African diaspora in Brazil. These are songs born from forced displacement, captivity and colonial violence, but also from the continuous invention of possible worlds through rhythm, voice and body.

Without explanatory interviews or external narration, the film unfolds as a living score. Each chant carries stories of crossing, loss and resistance: voices that crossed the Atlantic, encountered repression in the streets and on the plantation grounds, and remained alive in collective memory through sound. In capoeira, to sing is to remember — and remembering is a political act of resistance.

The berimbau guides the narrative as an ancestral instrument and historical archive. The roda asserts itself as a sonic territory of belonging, where body, music and word merge into a form of knowledge that escapes colonial writing. The capoeirista sings with the body, plays with memory, and transforms pain into movement.

Between Angola and Bahia, between sea, forest and city, the chants reveal an ancestry that is not fixed, but vibrating. An African heritage that reinvents itself with every toque, every choral response, affirming life in the face of erasure.

More than a documentary about capoeira, Everything That Capoeira Plays is a film about music as resistance. A cinema of listening, where the ancestral voice does not illustrate the image — it leads it, crosses it, and transforms it.

Everything that capoeira touches begins to resonate with history.

English Short Synopsis

Everything That Capoeira Plays is guided by ancestral music.

Through the chants of capoeira masters — ladainhas, corridos and songs passed from body to body — the film listens to the African diaspora in Brazil as a living musical archive. Without narration or explanation, voices, rhythms and gestures reveal capoeira as a political practice of memory, where song becomes resistance and the body becomes history.

SOUND STATEMENT
Sound is not an element of Everything Capoeira Touches — it is its structure.
The film is built entirely from the musical forms of capoeira: songs, call-and-response, rhythms, silences, and breath. These sounds do not function as accompaniment, but as carriers of historical knowledge. Each song acts as an archive of the African diaspora, preserving experiences of displacement, captivity, faith, struggle, and survival that were erased from official narratives.

The berimbau operates as a narrative axis and a political instrument. Its variations in timbre, rhythm, and call organize both the movement of the singing and the very temporality of the film. Bodies move out from the depths of the forest, as if emerging from a historical past — the place from which capoeira itself is born — and return there again, in a cyclical motion of departure and return to an ancestral Africa.

No external music is added. No voice explains what is heard. The film trusts the musical structure of the songs themselves, allowing rhythm and repetition to guide the viewer’s experience. In this sense, sound acts as a decolonial strategy: knowledge is transmitted through listening.

Everything Capoeira Touches understands sound as territory — a space where memory vibrates, ancestry is reactivated, and political resistance continues to resonate, not as nostalgia, but as presence.

Abordagem antropológica

O filme “Tudo que Capoeira Toca” foi realizado a partir de uma ampla pesquisa antropológica que buscou representar, de forma equilibrada, mestras e mestres de todas as 13 mezo-regiões de Minas Gerais, numa parceria entre a UFMG, por meio do Laboratório Audiovisual Saberes Tradicionais, o Coletivo da Salvaguarda da Capoeira em Minas Gerais e o IPHAN-MG. O projeto de extensão: Memórias da Capoeira em Minas Gerais: A voz dos mestres e das mestras, coordenado por Pedro Aspahan (EBA UFMG) foi desenvolvido ao longo de dois anos, resultando numa série de 25 episódios de retratos audiovisuais e neste longa. Os mestres e as mestras foram indicados pelo Coletivo da Salvaguarda da Capoeira, instituição constituída pelos próprios mestres do Estado, num esforço de constituição da salvaguarda da memória cultural e histórica desse patrimônio imaterial que é a capoeira. Para alcançarmos a forma final do nosso longa, desenvolvemos estratégias de abordagem audiovisual que se concentraram na performance, no gesto e na voz do corpo no espaço da mata, numa referência ao universo de origem da capoeira (mato ralo, rasteiro) e à sua relação com uma ancestralidade africana, que tem a mata também como uma entidade espiritual sagrada. O trabalho se constituiu a partir de um processo de escuta, em que cada mestre era convidado a performar uma música que tivesse marcado a sua história de vida e de aprendizado na capoeira, trazendo, consigo uma parte da própria história da capoeira no país. 

Relação com os interlocutores

Nossa relação com as mestras e mestres é marcada, em primeiro lugar, pela escuta atenta. Já há uns bons anos temos desenvolvido uma metodologia de trabalho audiovisual junto a mestras e mestres dos saberes tradicionais que tem como princípio: a escuta atenta e prolongada da fala e do canto; o plano sequência e a continuidade de planos longos, respeitando o tempo de fala de cada mestre; a articulação entre o corpo e o espaço, muitas vezes ligado à natureza e à espiritualidade de origem africana a ela associada; o respeito e a abertura para a cosmovisão apresentada pelo mestre, sem esforços de ilustração do que é dito, mas em busca de formas audiovisuais que dialoguem de modo imanente com as materialidades por eles referidas, etc. Ao longo do processo de filmagem, ficamos muito comovidos com a potência dos corpos e da música em seu modo único de transmitir uma história cantada da capoeira, que dialoga com toda a história da diáspora africana no país. 

perspectiva teórica metodológica

Desde 2014 desenvolvemos junto aos Saberes Tradicionais UFMG uma metodologia de trabalho audiovisual que busca respeitar a alteridade e as especificidades dos mestres afro indígenas e populares, com quem trabalhamos, nas dezenas de filmes que fizemos. No caso da capoeira, alcançamos uma enorme radicalidade ao propor a feitura de um longa musical, constituído integralmente pelos cantos, toques do berimbau, gestos e performance dos corpos na mata, diante da câmera. A forma do filme ganhou um elemento de roda, cíclico, em sua montagem, tendo a mata como origem imemorial e destino do movimento dos corpos. Impressionante notar como as letras dos cantos carregam as histórias de resistência do povo negro e escravizado no Brasil, fazendo emergir uma força ancestral de resistência à opressão, é próprio e sobrevive junto com a capoeira nos dias de hoje. 

Cada canto carrega histórias de travessia, perda e resistência: vozes que cruzaram o Atlântico, encontraram a repressão nas ruas e nas senzalas, e permaneceram ativas na memória coletiva por meio do som. Na capoeira, cantar é lembrar — e lembrar é um gesto político de resistência.

Equipe técnica

direção
Pedro Aspahan
César Guimarães

entrevistas
César Guimarães

produção
Ana Carolina Antunes

som direto e finalização de som
Leonardo Rosse

câmera e montagem
Pedro Aspahan

realização
Laboratório Audiovisual Saberes Tradicionais UFMG
www.saberestradicionais.org

Coletivo da Salvaguarda da Capoeira em Minas Gerais

IPHAN-MG


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