noite que não finda

Publicado terça-feira, outubro 6th, 2020 em 2:22

Endless Night

Realização | Composição Musical Original | Sopros/Clarineta

Pedro Aspahan | 2020 | 6′

Os acordes marcam cada luz que se apaga na cidade. Noite que não finda. A forma do filme e a composição musical foram construídas a partir de princípios matemáticos de progressão exponencial correlatos ao processo de disseminação descontrolada do Corona Vírus no Brasil, como forma de prestar homenagem e de elaborar a perda de mais de 60 mil vítimas da doença no país (dados de julho de 2020).

Sobre o projeto

O apagar de uma luz em uma janela da cidade noturna pode ser visto de forma poética, como velas que deixam de brilhar, abandonando o calor e a vida de seu ambiente, sugerindo também as vidas que se apagam diante da pandemia no país, enquanto outras luzes se mantêm acessas, velando a noite que não finda. O filme é uma forma de prestar homenagem e de elaborar a perda dessas inúmeras vítimas, incluindo uma pessoa querida de minha família que foi precocemente vitimada pela doença. 

Partimos das imagens noturnas da cidade, destacando os momentos em que as luzes de janelas se apagam, muitas vezes de modo bastante imperceptível para o nosso olhar. A experiência do filme oferece ao espectador uma sensação de perda, como se ele não conseguisse reter ou capturar o que acaba de acontecer à sua frente. A música caminha no sentido contrário, destacando, com acordes, cada luz que se apaga. 

No processo de construção da forma fílmica utilizamos o princípio matemático de progressão exponencial, próprio à propagação descontrolada da doença, para marcar cada passagem à tela preta. O primeiro intervalo em preto tem apenas 6 frames de duração, o segundo tem 12 frames, o terceiro, 24 frames (um segundo), até chegarmos ao ápice, no último intervalo, com 1 minuto de tela em preto: um minuto de silêncio das imagens em homenagem  às vítimas, enquanto os etéreos sons musicais agonizam nos agudos. O filme tem 6 minutos exatos de duração e foi feito quando atingimos 60 mil vítimas. Cada minuto do filme homenageia 10 mil vítimas. O filme produz um alargamento e uma angustiante densificação da noite que se aprofunda.

A construção da música também é feita usando o princípio da progressão matemática na aplicação de um crescente acúmulo de notas agudas da série harmônica, seguindo a sua lógica numérica intervalar: nota fundamental, oitava, quinta, e assim sucessivamente, o que corresponde às divisões da nota fundamental por valores progressivos: dividido por 2, 3, 4, 5, 6, 7 etc… até o último harmônico possível na tessitura da clarineta, caminhando sempre na direção dos agudos. 

Decidi trabalhar com o instrumento de sopro, a clarineta, não só por ser o instrumento com o qual venho me dedicando intensamente a aprender durante a quarentena, mas principalmente, por seu som ser produzido a partir de um sopro, algo que dialoga com os movimentos da respiração, da vida e da morte, e com os dilemas da Covid-19, que é uma doença respiratória: inspiração e expiração. Além disso, o sopro coloca em questão a própria origem mítica da humanidade, o sopro de vida sobre a matéria, e coloca também a ameaça do último suspiro, que nos visita e que se torna onipresente diante da pandemia. 

Para tocar o instrumento é preciso soprar, ficar sem ar durante a produção das notas, parar de respirar. Nesse sentido, a melodia principal vai se estabelecendo através de sopros os mais longos possíveis, até o completo término do ar na caixa torácica, produzindo um cansaço físico extenuante no instrumentista e um conjunto interessante de variações microtonais na afinação. 

A cada nova luz que se apaga, uma nova nota mais aguda da série harmônica vem se somar à nota fundamental que ressoa contínua. Trata-se de um processo contínuo e progressivo de adição, em diálogo com as experimentações da música espectral, num  jogo intenso de variações timbrísticas, com um certo nível controlado de aleatoriedade. No início, a música soa de forma bastante harmoniosa, por se tratar dos primeiros harmônicos consonantes da série, mas ao longo do tempo, com as adições progressivas dos harmônicos, a complexidade dos intervalos sonoros vai se ampliando e atingindo um nível extremo de dissonância no desenvolvimento da série, com intervalos de segundas maiores e menores em conflito nas notas mais agudas. 

Esse movimento de construção da tensão e da dissonância se rarefaz no final, num breve instante em que as notas ainda ressoam antes de lermos o título do filme, quando uma última nota aguda dissonante ressoa solitária sobre a fundamental e podemos perceber com mais clareza a dificuldade do sopro em manter a nota longa por tanto tempo, pois o ar vai se acabando e a afinação oscila. 

Esse grande movimento musical progressivo também intensifica a nossa sensação de angústia provocada pela quarentena, pois, no país, a situação tem se agravado e se intensificado de modo progressivo, sem recuos e sem perspectivas de melhora, como uma noite que não finda.